MESTRE NARCISO: UMA PAIXÃO COM DUAS CORES: VERMELHO E PRETO

O futebol tem a sua magia inexplicável que muitas vezes faz alguém se apaixonar de tal maneira que deixa muitas outras coisas importantes em segundo plano. Mestre de obra respeitado na cidade, que ele viveu com intensidade, Manuel Narciso da Natividade tinha nas veias as cores vermelho e preto. Assim, há 85 anos, nascia o Flamengo Futebol Clube de Feira de Santana.

Família, Trabalho e Flamengo. Era a trilogia na vida de Manoel Narciso da Natividade, o ‘Mestre Narciso’, mas muitas vezes a ordem era invertida. Era só alguém criticar o Clube de Regatas Flamengo para ele ficar na ‘ponta dos pés’, indo além de sua boa altura física para discutir com veemência, em defesa do seu time. Aliás, fiel ao que diz o hino: ‘uma vez Flamengo, sempre Flamengo’. Paixão, sempre se tem e pode ser por diferentes motivos, mas a paixão dele tinha duas cores: vermelho e preto. Para o respeitado mestre de obras – como se fosse daltônico – as demais cores não existiam, pelo menos quando se tratava de clubes de futebol.

Em 1939, o Flamengo desbancou o Fluminense, seu maior rival, e ficou com o título do Campeonato Carioca. No ano seguinte, o tricolor ‘despachou’ o rubro-negro e retomou o troféu. Inconformado com o que acontecia na Cidade Maravilhosa e na Capital Federal, ‘Mestre Narciso’ baixou o seu decreto e, em 15 de novembro de 1940, fundou o Flamengo de Feira de Santana. Uma maneira de encarar a torcida do ‘pó de arroz carioca’, que era numerosa na Cidade Princesa.

Naturalmente, ele não poderia contar com: Yustrich, Domingos e Newton, Biguá, Artigas (Jocelin), Volante e Médio. Sá, Valido, Leônidas (Caxambu), Gonzalez e Jarbas (Orsi), que foram os rubro-negros campeões cariocas de 1939, mas reuniu um elenco poderoso na terra de Senhora Santana para enfrentar o Bahia de Feira, surgido em 1937 e batizado como o ‘bicho-papão do interior’. Homem sério e respeitado, não apenas pela arte que desempenhava, mas pelo caráter, ‘Mestre Narciso’ muito contribuiu para o desenvolvimento da cidade.

Ele foi um dos fundadores da Micareta e integrante da comissão organizadora da festa de momo realizada em 1937, além de integrar o Bloco As Melindrosas, ao lado de Manuel Fausto dos Santos – Manuel de Emília, que, apesar de torcedor do Fluminense carioca, foi o fundador do Floresta, logo transformado em Botafogo. Trabalhador da construção civil, Manuel Narciso obteve o ‘título’ de mestre, que só os verdadeiros artistas conseguiam ter, assumindo a responsabilidade na execução de obras, já que eram raros os engenheiros e arquitetos. A construção do prédio da Filarmônica Euterpe Feirense, na Rua Conselheiro Franco, e a Ponte do Rio Branco, sobre o Rio Jacuípe, que já não existe, foram algumas das muitas edificações que tiveram sua participação direta.

Em 1940, a consolidação da ideia de fundar o Flamengo em Feira de Santana representou uma dose de sacrifício para o idealizador. Na época, era difícil a aquisição de material esportivo – camisas, meias, chuteiras, joelheiras – e, sobretudo, muito caro. Em Salvador, já existiam casas especializadas, ou de forma mais direta, no Rio de Janeiro, onde estavam as fábricas. De qualquer modo, implicava em dinheiro e o mestre Narciso teve que arcar.

Natural de Cachoeira, ele foi com a família para Salvador aos oito anos de idade e, aos 22, veio para Feira de Santana, onde se fixou. Casou-se com a senhora Hortência Maria de Santana, que lhe deu nove filhos. Ainda são vivos: Alice, Anete, Joselita, Sofia e Narciso (Ciso), que jogou no São Paulo de Feira e teve rápida passagem no Fluminense. Com uma banca para a venda de jornais e revistas localizada na Rua Conselheiro Franco, ao lado da agência do Banco Itaú, Ciso lembra que o pai acompanhava os jogos do Flamengo pelo rádio e, nessa hora, ‘ninguém podia interrompê-lo, salvo se fosse algo muito importante, inadiável mesmo’.

Aos domingos, quando o rubro-negro jogava, havia um ritual: ‘ele vestia um terno rubro-negro que lhe foi dado pelo empresário João Domingues Gonçalves – Dôte (outro grande torcedor do time carioca), ou outra roupa, também alusiva ao Flamengo’. Apesar da paixão pelo time carioca, sempre recusou os convites formulados por Dôte para assistir aos jogos do Flamengo no Maracanã. ‘Não sei se ele tinha medo de viajar, só sei que foram vários convites. Mas ele ficava ‘no pé’ do rádio’, lembra o filho Narciso.

Mesmo com o falecimento de seu fundador, o time rubro-negro continuou como uma das mais fortes agremiações do futebol amador interiorano, com cinco títulos municipais. No final dos anos 50 e início da década de 1960, quando o futebol local viveu ótima fase, o Flamengo, dirigido por Donga Carvalho, formou um elenco respeitável, como se vê na foto: Vavá, Leça, Nelson, Maneca, Dario e Zé Nego, Eclisônio (massagista). Antônio Luiz, Betinho, Léo, Vilmar e Pontinha.

Fonte: Prefeitura de Feira de Santana

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