Agentes Comunitários de Saúde: o elo entre a população e a rede de cuidado

Eles estão na linha de frente do cuidado básico. Saem de casa em casa levando informações, o acolhimento, monitoram a saúde dos moradores, especialmente aqueles com doenças crônicas, acamados, gestantes ou crianças pequenas. Em Feira de Santana são 780 agentes comunitários de saúde atuando na sede e distritos da zona rural, sendo o elo entre a população e a Atenção Primária à Saúde.

Nesta terça-feira, 5 de agosto, Dia Nacional da Saúde, destaque a esses profissionais que têm relatos de compromisso, escuta e dedicação a cada morador que os recebem em seus lares.

Eliana Pinheiro, moradora do bairro São João, é agente comunitária de saúde há 26 anos. Uma trajetória construída com afeto, dedicação e trabalho social contínuo.

“É um trabalho gratificante, porque é o que eu amo fazer. Sempre gostei de lidar com famílias, e na minha comunidade criei laços muito fortes. Às vezes enfrentamos dificuldades, mas sigo firme porque acredito no impacto que a informação e a orientação têm na vida das pessoas”.

Além das visitas domiciliares — que são a base do trabalho dos ACS — Eliana também atua na formação de grupos de convivência. Mães, idosos, homens, pessoas em situação de vulnerabilidade, como dependentes químicos, todos fazem parte de sua rede de cuidado. Ela acredita que a saúde vai além da ausência de doenças: está no vínculo, na partilha, na escuta atenta.

“Nossa maior missão é ouvir. Muitas famílias só precisam de alguém que escute, que acolha. A partir disso conseguimos identificar o que realmente aquela casa precisa, e, com o apoio da equipe de saúde, buscamos soluções. Quando falta algo, vamos atrás. Quando não sabemos como ajudar, pedimos apoio. E assim, de forma coletiva, a gente transforma realidades.”

O trabalho dos agentes comunitários é muitas vezes silencioso, feito “como formiguinhas”, como ela mesma descreve. Mas os efeitos são visíveis: mais qualidade de vida, fortalecimento dos laços comunitários, promoção da saúde mental e emocional.

“Acredito muito no poder das ações sociais. Aprendo todos os dias com minha comunidade, e eles também aprendem comigo. Isso é viver a saúde coletiva”.

Rotina de cuidado e escuta ativa

Com 23 anos de atuação como agente comunitária de saúde no distrito de Jaíba, Patrícia Moreira também é exemplo de vínculo entre os profissionais da atenção básica e a comunidade. Aos 45 anos, ela destaca a importância do seu trabalho na prevenção de doenças e na promoção da saúde.

Sua rotina inclui visitas domiciliares diárias, nas quais leva informações específicas conforme a realidade de cada família. “Se a casa tem uma gestante, falamos sobre a importância do pré-natal, o acompanhamento médico e o cuidado com a saúde da mãe e do bebê, antes e depois do nascimento”, explica.

Segundo Patrícia, o relacionamento com os moradores é construído com base na confiança, dedicação, empatia e um olhar atento à comunidade. “A relação é de amizade. As pessoas confiam na gente”, destaca.

A escuta ativa também faz parte essencial do cotidiano. Muitas vezes, as visitas se transformam em momentos de acolhimento emocional. “Às vezes encontramos alguém triste, passando por dificuldades, e a gente precisa parar, ouvir, dar espaço para essa pessoa se abrir. Nosso trabalho também é emocional”, relata.

Super-herói sem capa

Com duas décadas de atuação como agente comunitária de saúde, Renilza Amaral de Jesus, 47 anos, é referência no cuidado para os moradores do bairro Alto do Papagaio.

“Ser agente comunitária de saúde é quase ser um super-herói — só que sem a capa”, define ao falar sobre a importância do papel que exerce. Ela é responsável pelo acompanhamento de cerca de 152 famílias e realiza, em média, visitas a 10 a 12 delas por dia. “O foco principal é promover a saúde e prevenir o adoecimento da população, em todas as áreas — tanto física quanto psíquica”, explica.

Renilza enfatiza que a atuação vai muito além da simples transmissão de informações. Ao visitar as residências, ela orienta, escuta, identifica necessidades e contribui para o bem-estar das famílias, auxiliando com conhecimentos básicos de saúde e fortalecendo o vínculo entre a comunidade e o sistema público.

Décadas de dedicação e vínculo com a comunidade

A agente comunitária de saúde Dicelia Brandão, de 62 anos, é uma referência de compromisso e cuidado com a população. Prestes a completar 27 anos na função, ela acompanha diariamente dezenas de famílias, cuidando desde casos de hipertensão e diabetes até situações de saúde mental, gestação e vulnerabilidade social.

“É um trabalho maravilhoso”, resume Dicelia que inicia sua jornada todos os dias às 8h. Em média realiza de 10 a 12 atendimentos diários, divididos entre os turnos da manhã e da tarde. “A gente escolhe uma área para trabalhar e acompanha tudo: medicação, exames, consultas. Se a pessoa não sabe ler, a gente ajuda com datas e orientações. Às vezes, é preciso conversar com um filho, filha ou vizinho, que possa ajudar também”.

O trabalho, no entanto, vai além da rotina programada. Dicelia conta que situações inesperadas exigem flexibilidade. “Às vezes alguém passa mal e você precisa interromper as visitas para dar apoio, levar até a unidade de saúde ou acionar ajuda. Não tem como negar. Essas pessoas muitas vezes foram abandonadas pelos filhos, pelos maridos. O único apoio que têm somos nós e a unidade de saúde”, relata.

A escuta e o vínculo são pilares fundamentais da sua atuação, especialmente com os idosos. “Tenho pacientes com 80, 90 anos. Eles precisam conversar. Eles tomam mais do nosso tempo, mas é um tempo que faz diferença”, afirma.

Mesmo atuando oficialmente de segunda a sexta-feira, Dicelia continua sendo referência nos fins de semana e até a noite. “Eles vão até minha casa. Às vezes querem ajuda para preencher um documento, marcar um exame ou entender alguma informação. Eu faço porque sei que precisam”.

Para Dicelia, ser agente comunitária é mais do que uma função técnica. É exercer cuidado humano, ser ponte entre a comunidade e os serviços de saúde e, sobretudo, fazer parte da vida das pessoas.

“Na realidade, essas pessoas dependem muito da gente. A gente é o elo com o SUS. E tem que ser assim”, pontua destacando ainda, enquanto entrelaça a linha e agulha em seus momentos dedicados ao artesanato, que uma vez a cada mês oferta o café da manhã dos garis, como um dos trabalhos sociais que desenvolve na comunidade.

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